Empresas zumbis: o que a cobertura de juros revela antes da inadimplência
Empresas que seguem funcionando mesmo frágeis, com rentabilidade baixa e dependência alta de crédito não são um acidente de ciclo no Brasil. Essa é a conclusão de uma dissertação de mestrado em economia que analisou dados trimestrais de 375 companhias listadas na B3 entre 2010 e 2024: aqui, o fenômeno das empresas zumbis tem caráter estrutural, e não cíclico.
Para quem concede crédito, a consequência é direta. Se a fragilidade é permanente, ela vai estar na carteira de qualquer forma — o que importa é com quanta antecedência dá para enxergá-la.
Um critério simples
Entre os métodos que o estudo usa para identificar uma empresa zumbi está um teste objetivo: a média do índice de cobertura de juros nos oito trimestres anteriores abaixo de 1. Ou seja, durante dois anos o resultado operacional não foi suficiente para pagar as despesas financeiras. A média longa é intencional — separa um trimestre ruim de um padrão.
A pesquisa também compara a incidência de empresas zumbis com os pedidos efetivos de recuperação judicial e procura saber se existem sinais de fragilidade financeira que antecedem o pedido. É justamente esse intervalo que interessa ao credor: a empresa já está fragilizada, mas ainda não quebrou formalmente.
Mais do que o tamanho da dívida, o seu perfil
Um dos resultados trata da composição do endividamento. Nas empresas classificadas como zumbis, o uso de crédito de curto prazo aumentou 8,1%, e o de longo prazo recuou 10,7%. A cobertura do estudo associa essa troca a uma exposição maior a choques de liquidez — o que faz sentido: dívida que precisa ser rolada com mais frequência deixa menos folga quando o financiamento seca.
Por isso, um saldo total de dívida estável não tranquiliza ninguém sozinho. Acompanhar, período a período, como se dividem as obrigações de curto e de longo prazo diz mais sobre o risco de aperto de liquidez do que o número consolidado.
Quando o default chega, a decisão já passou
O Banco Central considera inadimplente a operação com pelo menos uma parcela vencida há mais de 90 dias. É um marco relevante, mas que registra algo que já aconteceu. A instituição que precisa decidir hoje se empresta, e quanto, fica dependente de um sinal atrasado se esperar por ele.
Os comentários que acompanham o estudo lembram que empresas raramente entram em dificuldade de uma hora para outra. Antes do atraso grave, da reestruturação profunda ou do pedido de recuperação judicial, costuma haver uma fase de desgaste: o caixa aperta, o peso da dívida cresce e o crédito novo passa a cobrir compromissos antigos em vez de financiar crescimento. Duas empresas podem exibir números parecidos hoje e riscos bem diferentes — uma recompondo caixa depois de um período difícil, a outra queimando reservas mês a mês. A foto é a mesma; o rumo, não.
O que acompanhar ao longo do tempo
- A cobertura de juros em média de vários trimestres, e não de um só.
- A proporção entre crédito de curto e de longo prazo — e para onde ela caminha.
- Se o crédito novo financia crescimento ou apenas mantém em dia o que já foi assumido.
- O comportamento do caixa: sendo recomposto ou consumido.
- A constância da receita e as obrigações já contratadas.
Esses sinais estão espalhados pelas demonstrações financeiras e se perdem quando cada documento é lido isoladamente. A Sabiá Alpha extrai os campos financeiros com citação de fonte em cada um, para que a trajetória seja montada período a período e cada número possa ser rastreado até o documento de origem.
Este texto tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Os números do estudo devem ser conferidos na pesquisa original e nos documentos das próprias companhias antes de qualquer decisão de crédito.