← Todos os insights
Crédito·2 de out. de 2026·5 min de leitura

Inadimplência recorde em pleno ciclo de corte: o que os 6% de agosto dizem sobre carteiras de consumo

Os dados de crédito de agosto do Banco Central mostraram em alta dois números que, num ciclo de afrouxamento, seria natural ver em queda. A inadimplência geral do consumidor passou de 5,8% em julho para 6%, recorde histórico. Já a taxa média de juros da economia, depois de três quedas mensais seguidas, subiu 0,2 ponto percentual e chegou a 32,3% ao ano — com a Selic em trajetória de queda, hoje em 13,75%. Para quem compra, financia ou estrutura recebíveis de consumo, o número agregado diz pouco; o que interessa está na abertura.

Piora espalhada, com uma única exceção

No crédito livre, em que a taxa é negociada pela instituição, a fatia de pessoas físicas com mais de 90 dias de atraso foi de 7,8% para 8%. E não se trata de um produto isolado: o crédito pessoal sem garantia saiu de 10,6% para 11%; o consignado privado, de 10% para 10,6%; e o crédito pessoal livre — que reúne rotativo e parcelado do cartão — de 7,1% para 8%. Só o cheque especial melhorou, de 16,31% para 15,34%. Os números, por si, não explicam o movimento do cheque especial, e convém não tirar conclusões de uma linha que destoa das demais.

A linha mais cara cresce e encarece

A alta da taxa média veio sobretudo do crédito livre, que subiu 0,8 ponto, a 48,5% ao ano, e do crédito pessoal, com mais 0,7 ponto, a 38,2%. O salto mais forte, porém, foi no rotativo do cartão — o saldo que fica quando a fatura não é paga integralmente. Esse saldo cresceu 4,8% no mês, a taxa média avançou 8,7 pontos, a 444,9% ao ano, e a inadimplência da linha foi de 65,5% para o recorde de 66,2%. O parcelado do cartão passou de 189,3% para 192,1% ao ano e é hoje a segunda modalidade mais cara do mercado. Quando a linha mais cara cresce ao mesmo tempo em que sobem seu preço e seu calote, a pergunta que se impõe é se o tomador escolheu esse crédito ou ficou sem alternativa.

A Selic não explica tudo

Uma leitura possível é que o longo período de Selic a 15%, de junho de 2025 a março de 2026, apertou o orçamento das famílias. Mas o endividamento vem subindo desde 2021, atravessando fases de juros baixos e de juros altos — o que sugere que o ciclo monetário sozinho não dá conta da história. A inadimplência também cresce com mercado de trabalho aquecido e inflação em desaceleração, e outra leitura é a de uma renda que não acompanha alimentação, saúde e moradia. A consequência mecânica é direta: se parte dos vetores está fora da taxa básica, cortá-la não basta para derrubar a inadimplência, e a composição do crédito concedido pesa tanto quanto o seu custo.

Desenrola 3.0: alcance e limites

O governo federal lançou a terceira edição do Desenrola Brasil, voltada a dívidas com atraso entre dois e quatro anos e meio, com foco em cartão de crédito e crédito pessoal sem garantia de até R$ 10 mil. Pela estimativa oficial, o programa alcança até 15 milhões de pessoas e até R$ 150 bilhões em dívidas renegociáveis. São tetos anunciados, não volumes contratados, e o que vai importar é a adesão efetiva. A renegociação alivia quem carrega dívida antiga; não muda a precificação do crédito novo nem a pressão de renda que gerou os atrasos.

Do agregado à carteira

A inadimplência do sistema não é a inadimplência de uma carteira. O passo útil é confrontar o mix de produtos do lastro com as linhas que se moveram: uma carteira concentrada em crédito pessoal sem garantia, consignado privado ou cartão está justamente nos segmentos que pioraram; uma concentrada em cheque especial está no único que melhorou. O corte de 90 dias que os dados usam para o crédito livre também serve de lembrete para conferir se as faixas de atraso da própria carteira seguem o mesmo critério antes de qualquer comparação. E, se o lastro contém dívidas antigas o bastante para cair na janela do Desenrola, uma renegociação altera o perfil de fluxo de caixa do ativo, não apenas sua classificação.

O que acompanhar

  • O teor das medidas macroprudenciais sinalizadas pelo Banco Central, em especial as voltadas ao rotativo do cartão e ao crédito pessoal sem garantia.
  • Os volumes efetivamente contratados e renegociados no Desenrola 3.0, comparados às estimativas oficiais de R$ 150 bilhões e 15 milhões de pessoas.
  • Se as taxas do crédito livre e do rotativo seguem subindo depois de agosto, e se a inadimplência geral se estabiliza perto de 6%.
  • O ritmo de crescimento dos saldos do rotativo e do parcelado, as duas modalidades mais caras do mercado.

Este artigo é um panorama educacional sobre dados públicos do Banco Central e não constitui recomendação de investimento nem sugestão sobre qualquer valor mobiliário, emissor ou estratégia. Os números estão sujeitos a revisão pela fonte e devem ser conferidos no release original antes de qualquer uso.

Quer isso rodando nos seus próprios materiais?

Solicitar Acesso

Receba as próximas notas de campo assim que saírem — siga a Sabiá Alpha no LinkedIn.

Seguir no LinkedIn